30/08/2010
SENTADA NA CADEIRA
Ary Ribeiro
Com o resultado da última pesquisa do Ibope, confirmando as de outros institutos, a candidata Dilma Rousseff já se sente sentada na cadeira presidencial, mesmo faltando um mês e pouco para as eleições.
Ao menos assim foi interpretada por José Serra a declaração da candidata de que pretende estender-lhe a mão num eventual governo do PT.
A declaração deixa efetivamente margem para esse entendimento, que implicaria menosprezo à vontade do eleitorado. Mesmo que neste momento a maioria se mostre inclinada a votar em Dilma, essa opinião ainda pode mudar.
Parece difícil. Imaginava-se que com a propaganda pelo rádio e televisão, Serra tomaria a dianteira, tal a diferença, em seu favor, entre a sua biografia e a da candidata oficial, entre a experiência e as realizações de um e de outra. Mas seu marketing se mostrou desastroso.
O Serra mostrado nos programas não é – ao menos não era – o Serra que se conhecia: sério, firme, até um tanto antipático. Transformaram-no num falso “Serra paz e amor”, que se recusava a combater Dilma e seu patrono, sob o argumento de que este desfruta de alta popularidade.
A aprovação do governo e de Lula se deve ao fato dele não ter desmantelado a casa que seu antecessor, Fernando Henrique, lhe passou arrumada: moeda estabilizada (graças ao Plano Real), endividamento dos Estados sob controle, Responsabilidade Fiscal, câmbio flutuante etc.
Todas essas medidas tomadas pelo governo do PSDB, melhorando a vida de milhões de pessoas, deixaram de ser proclamadas pela propaganda de Serra. Lula ficou com os louros, sem ser incomodado.
Em todo o caso, como falta algum tempo para as eleições, pode ser que a ficha ainda caia no comando da campanha serrista, pois ela está sendo muito criticada. Talvez o candidato guarde algumas cartas nas mangas para lançá-las na última hora. Dilma é candidata com muitos flancos vulneráveis.
BOAS BRIGAS À VISTA
Não é somente Dilma que já estaria se sentindo sentada na cadeira presidencial, como observou Serra. Alguns de seus principais aliados e colaboradores não têm dúvida disso.
Em comentário anterior, mencionei matéria de O Estado de S.Paulo, segundo a qual o PMDB começou a mostrar suas garras. Quer ser tratado, num futuro governo Dilma, como sócio do poder e não como partido aliado, como foi até agora. Quer, portanto, dividir com o PT o comando do governo, tendo, inclusive, assento na chamada “reunião das 9 horas”, no Palácio do Planalto, durante a qual se faz análise da situação política e econômico e se estabelecem medidas a tomar.
Eleita Dilma, essa será uma boa briga, até porque Lula não estará de fora. Ele também quer um bom naco do poder, de preferência o comando de tudo. Foi por isso que escolheu e impôs ao PT uma candidata sem experiência eleitoral – inteiramente dele dependente – e arregaçou as mangas para elegê-la.
E há ainda outra briga se armando. Briga antiga. Entre dois pesos pesados do petismo: Antonio Palocci e José Dirceu. Eis o que escreveram os repórteres Wilson Tosta e Vera Rosa na edição de domingo do Estadão: “A 35 dias da eleição, os ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci disputam os rumos de eventual novo governo comandado pelo partido. Depois de emitir sinais contrários à possível indicação de Palocci para a Casa Civil, Dirceu luta agora para impedir que ele volte a ditar os caminhos da economia, a partir de 2011. Os dois ‘generais’ do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reeditam a queda de braço que travaram no primeiro mandato do PT para definir a fisionomia do governo.”
PALAVRAS PRESIDENCIAIS
Além de participar com toda desenvoltura de comícios em favor de seus candidatos – coisa que um presidente da Repúblia jamais fez em toda a história do País – Lula ainda ataca a oposição e candidatos oposicionistas, atropelando também o que seu aliado José Sarney chama de “a liturgia do cargo”.
No fim da semana passada, em comício realizado no Recife, o presidente, segundo noticiário, classificou oposicionistas de “picaretas e chantagistas” e foi além. Sem citar nomes, assim se referiu a Marco Maciel, homem de bem, um dos políticos mais expressivos de Pernambuco e membro da Academia Brasileira de Letras: “Desde pequeno eu ouço um cidadão aí, que já foi deputado, presidente do Congresso, da Câmara, do Senado, vice-presidente, e me contem o que é que ele trouxe para Pernambuco?” Do senador Jarbas Vasconcelos (dissidente do PMDB), outro político que engrandece Pernambuco e que se lançou candidato a governador para ajudar a campanha de Serra, disse: “Ele vai ficar devendo pontos ao Ibope.” Jungmann foi tratado de político menorzinho, que “parecia que tomava conta da reforma agrária” (Foi ministro da Reforma Agrária no governo Fernando Henrique.) E completou: “Pernambuco de Julião, de Arraes, de Frei Caneca, Eduardo Campos e de Lula não pode votar neste tipo de gente para senador da República.”
A LOJINHA DA DILMA
Está é revelação da Folha de S.Paulo, edição de domingo:
Segundo a repórter Fernanda Odilla, a candidata Dilma Rousseff teve uma experiência gerencial – não incluída em seu currículo – antes de tornar-se “gerente” do governo Lula e do PAC. Foi uma das donas de uma loja, no Rio Grande do Sul, denominada “Pão & Circo”, especializada na importação de produtos diversos do Panamá, para vender no atacado e no varejo. Os outros sócios eram a ex-cunhada Sirlei Araújo, o ex-marido Carlos Araújo – que foi dirigente da organização da luta armada VAR-Palmares – e um sobrinho, João Vicente. A loja durou um ano e meio, tendo sido fechada em julho de 1996.
Na iniciativa privada, a “gerente” do PAC não teve êxito.
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terça-feira, 31 de agosto de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Coluna do Ary Ribeiro
23/08/2010
AO BUTIM!
Ary Ribeiro
Nem bem saiu a pesquisa do DataFolha registrando a ascensão de Dilma (com 47 pontos) e a queda de Serra (30 pontos), e já começa a corrida ao futuro butim presidencial.
O PMDB quer dividir o poder “meio a meio” com o PT, informou o jornal O Estado de S.Paulo, em sua edição de ontem, domingo, sem precisar como ficariam os demais partidos que integram a coligação governista. Certamente como mero coadjuvantes.
O maior partido político do País, todo mundo sabe, tem irresistível vocação governista. Não para disputá-lo. Para isso não tem candidato – ou não quer tê-lo. Prefere entrar no poder por uma porta lateral. Foi assim nos governos Fernando Henrique e Luiz Inácio Lula da Silva.
Desta vez, porém, argumentam seus dirigentes, o partido deu respaldo desde o início à candidatura Dilma, exigiu e obteve a vice-presidência, para ela indicando seu próprio presidente, Michel Temer.
José Alencar era senador pelo PMDB de Minas Gerais. Mas sua candidatura a vice-presidente não resultou de indicação do partido e sim de escolha direta de Lula (ou da cúpula do PT). E foi escolhido não por ser peemedebista, mas por sua condição de próspero empresário, o que daria consistência à mudança de rumos do PT, consubstanciada na sua então recém-lançada Carta aos Brasileiros.
Agora, não. Agora, a aliança PT-PMDB se fez antes da eleição, cabendo ao PMDB o cargo de vice na chapa. Então – esse é o raciocínio – se a vitória se confirmar, ela será de ambos, fifty-fifty, como dizem os ingleses. Nada mais de hegemonia petista. O PMDB vai querer dividir tudo, participando inclusive do núcleo decisório palaciano, com presença na chamada “reunião das 9 horas”, e do comando da economia. Temer não será um José Alencar, sem demérito nenhum para este, que é homem de bem e de comportamento irrepreensível no governo. Mas ele é essencialmente um empresário; Temer é professor universitário e político. Terá vindo da presidência do partido e da Câmara dos Deputados.
O PMDB vai querer ampliar também a sua participação nos ministérios. Mesmo antes de externar suas pretensões, já estava acertado entre Dilma e Édison Lobão que, em caso de vitória, ele voltaria a ocupar a pasta das Minas e Energia. Uma de suas principais auxiliares nem foi devolvida ao órgão de origem. Ficou lá à sua espera.
Outra coisa que o PMDB deixará bem claro é que não vai mais aceitar que o PT ou outros partidos da base aliada dividam cargos de direção em ministérios que lhe couberem numa futura partilha. Vai querer o que no mundo político se chama de “porteira fechada”.
A disputa pelo futuro butim, portanto, está se armando, mesmo não sendo ainda tão certa, como imaginam, a vitória de Dilma. As pesquisas registram momentos. Por enquanto, muito favoráveis a ela em função, de um lado, da intensificação da participação de Lula na sua (aqui vale o sentido duplo) campanha e, de outro, da frouxa campanha que Serra faz na cadeia de rádio e televisão. Há ainda bastante chão pela frente. Não se pode esquecer que eleições “ganhas” se perdem por algum fator inesperado. Fernando Henrique, em 1985, estava com a eleição ganha para prefeito de São Paulo (contra Jânio Quadros), quando, indagado na televisão se acreditava em Deus, respondeu que não e, não bastasse isso, deixou-se fotografar, na véspera do pleito, sentado à mesa do Prefeito. Foi derrotado. E Lula perdeu a eleição praticamente ganha, em 1989, quando Collor revelou que ele tinha uma filha rejeitada, Lurian.
Mas, admitindo, apenas para raciocinar, que Dilma saia vencedora e que o PMDB não abra mão de dividir o poder, o tão esperto plano de Lula de elegê-la para continuar mandando (num terceiro mandato camuflado) poderá ir por água abaixo. Uma coisa é Lula no governo fazendo concessões ao PMDB. Outra, é Lula formalmente fora do governo e o PMDB sentindo-se dono da casa e ainda por cima controlando o Congresso. E o plano do próprio PT, consubstanciado no Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) – de censurar a imprensa e controlar a educação e a cultura – também poderá ir pelo mesmo caminho. PMDB não é PT. Está muito distante da herança ideológica petista.
Bem, é esperar para ver.
CACARECOS NA TV
Esse horrível desfile de candidatos, na televisão, alguns com nomes, apelos ou slogans de muito mau gosto, está levando comentaristas políticos a lembrar-se da campanha do Cacareco, em São Paulo.
Muita gente talvez não saiba o que isso significa. Vou explicar. Estava em curso, há muitos anos, uma campanha para vereadores, em São Paulo. Com candidatos também de baixíssimo nível.
Enojados com aquele desfile, uns cinco ou seis redatores do jornal da Rádio Eldorado – entre os quais me incluía – teve a ideia de lançar o Cacareco como candidato. Era uma forma de protesto, que, como se vê, de nada adiantou.
O nome foi por mim lembrado por estar em evidência. Tratava-se de um rinoceronte que, cedido pelo Zoológico do Rio, acabara de chegar ao Zoológico de São Paulo. Estava nas páginas dos jornais e nas rádios e televisões. E, afinal, estava no nível de vários candidatos, como aquele gordo cujo slogan dizia: “Vale quanto pesa” .
Feita a escolha, compramos tinta e pincel, fomos à noite para a frente da entrada principal do Estádio do Pacaembu, pintamos no chão o nome de Cacareco para vereador e no dia seguinte avisamos os jornais, que foram ao local, fizeram fotos e a partir daí a campanha pegou e cresceu sozinha. O jornal Ultima Hora publicou uma cédula (votava-se por meio de cédulas) que podia ser recortada.
Ao abrirem as urnas, cédulas de Cacareco apareciam em muitas delas. Obviamente não foram contadas. Mas se calculou que o rinoceronte obteve mais votos que o vereador mais votado. Hoje, com a urna eletrônica, não mais seria possível repetir isso. Mas há vários “Cacarecos” na disputa, inscritos sob os mais variados nomes...
Ary Ribeiro é jornalista e escreve às segundas-feiras neste blog.
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AO BUTIM!
Ary Ribeiro
Nem bem saiu a pesquisa do DataFolha registrando a ascensão de Dilma (com 47 pontos) e a queda de Serra (30 pontos), e já começa a corrida ao futuro butim presidencial.
O PMDB quer dividir o poder “meio a meio” com o PT, informou o jornal O Estado de S.Paulo, em sua edição de ontem, domingo, sem precisar como ficariam os demais partidos que integram a coligação governista. Certamente como mero coadjuvantes.
O maior partido político do País, todo mundo sabe, tem irresistível vocação governista. Não para disputá-lo. Para isso não tem candidato – ou não quer tê-lo. Prefere entrar no poder por uma porta lateral. Foi assim nos governos Fernando Henrique e Luiz Inácio Lula da Silva.
Desta vez, porém, argumentam seus dirigentes, o partido deu respaldo desde o início à candidatura Dilma, exigiu e obteve a vice-presidência, para ela indicando seu próprio presidente, Michel Temer.
José Alencar era senador pelo PMDB de Minas Gerais. Mas sua candidatura a vice-presidente não resultou de indicação do partido e sim de escolha direta de Lula (ou da cúpula do PT). E foi escolhido não por ser peemedebista, mas por sua condição de próspero empresário, o que daria consistência à mudança de rumos do PT, consubstanciada na sua então recém-lançada Carta aos Brasileiros.
Agora, não. Agora, a aliança PT-PMDB se fez antes da eleição, cabendo ao PMDB o cargo de vice na chapa. Então – esse é o raciocínio – se a vitória se confirmar, ela será de ambos, fifty-fifty, como dizem os ingleses. Nada mais de hegemonia petista. O PMDB vai querer dividir tudo, participando inclusive do núcleo decisório palaciano, com presença na chamada “reunião das 9 horas”, e do comando da economia. Temer não será um José Alencar, sem demérito nenhum para este, que é homem de bem e de comportamento irrepreensível no governo. Mas ele é essencialmente um empresário; Temer é professor universitário e político. Terá vindo da presidência do partido e da Câmara dos Deputados.
O PMDB vai querer ampliar também a sua participação nos ministérios. Mesmo antes de externar suas pretensões, já estava acertado entre Dilma e Édison Lobão que, em caso de vitória, ele voltaria a ocupar a pasta das Minas e Energia. Uma de suas principais auxiliares nem foi devolvida ao órgão de origem. Ficou lá à sua espera.
Outra coisa que o PMDB deixará bem claro é que não vai mais aceitar que o PT ou outros partidos da base aliada dividam cargos de direção em ministérios que lhe couberem numa futura partilha. Vai querer o que no mundo político se chama de “porteira fechada”.
A disputa pelo futuro butim, portanto, está se armando, mesmo não sendo ainda tão certa, como imaginam, a vitória de Dilma. As pesquisas registram momentos. Por enquanto, muito favoráveis a ela em função, de um lado, da intensificação da participação de Lula na sua (aqui vale o sentido duplo) campanha e, de outro, da frouxa campanha que Serra faz na cadeia de rádio e televisão. Há ainda bastante chão pela frente. Não se pode esquecer que eleições “ganhas” se perdem por algum fator inesperado. Fernando Henrique, em 1985, estava com a eleição ganha para prefeito de São Paulo (contra Jânio Quadros), quando, indagado na televisão se acreditava em Deus, respondeu que não e, não bastasse isso, deixou-se fotografar, na véspera do pleito, sentado à mesa do Prefeito. Foi derrotado. E Lula perdeu a eleição praticamente ganha, em 1989, quando Collor revelou que ele tinha uma filha rejeitada, Lurian.
Mas, admitindo, apenas para raciocinar, que Dilma saia vencedora e que o PMDB não abra mão de dividir o poder, o tão esperto plano de Lula de elegê-la para continuar mandando (num terceiro mandato camuflado) poderá ir por água abaixo. Uma coisa é Lula no governo fazendo concessões ao PMDB. Outra, é Lula formalmente fora do governo e o PMDB sentindo-se dono da casa e ainda por cima controlando o Congresso. E o plano do próprio PT, consubstanciado no Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) – de censurar a imprensa e controlar a educação e a cultura – também poderá ir pelo mesmo caminho. PMDB não é PT. Está muito distante da herança ideológica petista.
Bem, é esperar para ver.
CACARECOS NA TV
Esse horrível desfile de candidatos, na televisão, alguns com nomes, apelos ou slogans de muito mau gosto, está levando comentaristas políticos a lembrar-se da campanha do Cacareco, em São Paulo.
Muita gente talvez não saiba o que isso significa. Vou explicar. Estava em curso, há muitos anos, uma campanha para vereadores, em São Paulo. Com candidatos também de baixíssimo nível.
Enojados com aquele desfile, uns cinco ou seis redatores do jornal da Rádio Eldorado – entre os quais me incluía – teve a ideia de lançar o Cacareco como candidato. Era uma forma de protesto, que, como se vê, de nada adiantou.
O nome foi por mim lembrado por estar em evidência. Tratava-se de um rinoceronte que, cedido pelo Zoológico do Rio, acabara de chegar ao Zoológico de São Paulo. Estava nas páginas dos jornais e nas rádios e televisões. E, afinal, estava no nível de vários candidatos, como aquele gordo cujo slogan dizia: “Vale quanto pesa” .
Feita a escolha, compramos tinta e pincel, fomos à noite para a frente da entrada principal do Estádio do Pacaembu, pintamos no chão o nome de Cacareco para vereador e no dia seguinte avisamos os jornais, que foram ao local, fizeram fotos e a partir daí a campanha pegou e cresceu sozinha. O jornal Ultima Hora publicou uma cédula (votava-se por meio de cédulas) que podia ser recortada.
Ao abrirem as urnas, cédulas de Cacareco apareciam em muitas delas. Obviamente não foram contadas. Mas se calculou que o rinoceronte obteve mais votos que o vereador mais votado. Hoje, com a urna eletrônica, não mais seria possível repetir isso. Mas há vários “Cacarecos” na disputa, inscritos sob os mais variados nomes...
Ary Ribeiro é jornalista e escreve às segundas-feiras neste blog.
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segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Coluna do Ary Ribeiro
16/08/2010 Ary Ribeiro é Jornalista e Publica sempre às segundas neste Blog
SERRA E A ENCRUZILHADA
Os dados da última pesquisa do DataFolha, divulgados no fim da semana, mostraram Dilma Rousseff pela primeira vez à frente de Serra: 41% contra 33%. Em comparação com a pesquisa anterior, de fins de julho, ela subiu 5 pontos e Serra caiu 4. Como o instituto ouviu os eleitores entre os dias 9 e 12, é pouco provável que a pesquisa tenha refletido o resultado da entrevista de Serra ao Jornal Nacional, da TV Globo, realizada na noite anterior, dia 11. Dilma fora ouvida no dia 9.
Parece fora de dúvida, de qualquer maneira, que ela subiu e que Serra caiu. Por que? De um lado porque Lula mobilizou o governo para impulsionar a candidatura de Dilma, de outro porque a estratégia de Serra não estaria dando o resultado esperado. Não tem feito críticas diretas a Lula porque – justifica – ele não é candidato. Daqui a quatro meses e pouco deixará o governo e irá para casa. Candidata a governar o País é Dilma – e é com ela que se deve travar o combate. O eleitor deve comparar Dilma com ele, Serra, e ver qual dos dois está mais preparado para gerir os destinos da Nação nos próximos quatro anos.
A estratégia, aparentemente correta, pretende desvincular Dilma de um presidente com tão alta aprovação popular. Acontece que isso não estaria ocorrendo. Serra não está conseguindo dissociar Dilma de Lula e então ficam ele e Dilma falando mais ou menos a mesma coisa. Um diz que vai fazer não sei quantos hospitais e quantas escolas, que fez isso e aquilo, outro diz que vai fazer o trem-bala (que por enquanto não passa de fantasia de campanha eleitoral, pois não há nem levantamento de trajeto, de possíveis e complicadas desapropriações etc.) e não sei quantos quilômetros de ferrovias e que também fez isso e aquilo. Ou seja, como diria Plínio de Arruda Sampaio, são candidatos iguais. E se são iguais, imagina o eleitor – que, de modo geral, não está insatisfeito com a situação do País – por que mudar?
Serra aproxima-se, pois, de uma encruzilhada. Vai continuar com essa mesma estratégia nos programas de propaganda eleitoral que começarão amanhã, na televisão, ou a mudará drasticamente? Se persistir nesse caminho e, depois dos primeiros programas não obtiver o resultado esperado, seria melhor lançar fora a pele de cordeiro e agir como leão, atacando firmemente os desmandos administrativos, os desvios de conduta, a partidarização da máquina governamental, enfim, tudo de errado que há no governo. Tem de deixar claro para o eleitor de que lado está o trigo e de que lado está o joio. Talvez só assim se tire o eleitorado da letargia em que está mergulhado.
REVELAÇÕES DO PORÃO
Muito esclarecedora a entrevista do sindicalista Wagner Cinchetto à revista Veja. Ele revela, como ex-integrante de um grupo sindical-petista, como se preparam dossiês contra adversários. Uma de suas informações é de que esse grupo esteve por trás do caso Lunus.
Para quem não se lembra, Roseana Sarney, então do PFL, começava a subir como pré-candidata à Presidência da República nas eleições de 2002, em que concorriam também Lula e Serra. Sua candidatura, porém, desabou quando a Polícia Federal, com mandado judicial, vasculhou o escritório da empresa Lunus, no Maranhão, descobriu suas ligações com a candidata, irregularidades com a Sudam e R$ 1,34 milhão em dinheiro. A família Sarney atribuiu o fato ao então candidato José Serra – agora se sabe que tudo teria sido engendrado pelo porão sindical – bandeou-se para o lado de Lula e o PFL, agastado, distanciou-se de Serra e do PSDB.
Pergunta da revista: O então candidato Lula sabia alguma coisa sobre a atividade de vocês? Resposta: Lula sabia de tudo e deu autorização para o trabalho.
DILMA E AS PROVAS
Indagada sobre a matéria de O Estado de S.Paulo, segundo a qual, em julho de 2004, a governadora Roseana Sarney, sua aliada, teria simulado empréstimo de R$ 4,5 milhões com o Banco Santos, para repatriar dinheiro do exterior, Dilma Rousseff disse que só se manifestará depois de ver os documentos do Banco – que está sob intervenção judicial, decretada em novembro de 2004. Se ela for esperar que os documentos sejam examinados pela justiça – com decisão transitada em julgado – talvez não se manifeste antes das eleições de 2014.
O PASSADO DE DILMA
Na extensa matéria que a revista Época publica sobre as atividades de Dilma Rousseff na luta armada contra o regime militar, não há nada indicando ter ela participado diretamente de ações armadas, como assalto a bancos (para “expropriações”, segundo a terminologia dos grupos da luta armada) ou assassinatos. Mas consta dos arquivos policiais que ela ocupava cargos de direção nacional nesses movimentos, denominados de Colina, VAR e VAR-Palmares.
AGÊNCIAS ESVAZIADAS
Lula nunca escondeu seu desapreço pelas Agências Reguladoras, criadas pelo governo Fernando Henrique para assegurar o cumprimento de contratos e defender os interesses de usuários de serviços públicos. Ao tomar posse, em 2003, disse que elas eram uma forma de “terceirizar o governo”. Desde então as vem debilitando. Primeiro, loteando os cargos de direção entre partidos políticos aliados, quando a ideia era de que, para atuarem com independência, as agências deveriam ser dirigidas por técnicos desvinculados até mesmo do governo. Depois, criando órgãos para assumir papeis das agências, como é o caso da recriação da Telebrás e da Petro Sal. Agora se revela que o governo as está deixando também à míngua de verbas. Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, o contingenciamento médio das verbas, entre 1998 e 2009, foi o seguinte em cada Agência: ANP (combustíveis), 88,9%; Aneel (energia), 51,7%; Anatel (telecomunicações), 84,7%; Ana (águas), 53,6%; ANTT (transportes terrestres), 46,9%; Antaq (transportes aquaviários), 34%; e Anac (aviação), 35,9%.
SERRA E A ENCRUZILHADA
Os dados da última pesquisa do DataFolha, divulgados no fim da semana, mostraram Dilma Rousseff pela primeira vez à frente de Serra: 41% contra 33%. Em comparação com a pesquisa anterior, de fins de julho, ela subiu 5 pontos e Serra caiu 4. Como o instituto ouviu os eleitores entre os dias 9 e 12, é pouco provável que a pesquisa tenha refletido o resultado da entrevista de Serra ao Jornal Nacional, da TV Globo, realizada na noite anterior, dia 11. Dilma fora ouvida no dia 9.
Parece fora de dúvida, de qualquer maneira, que ela subiu e que Serra caiu. Por que? De um lado porque Lula mobilizou o governo para impulsionar a candidatura de Dilma, de outro porque a estratégia de Serra não estaria dando o resultado esperado. Não tem feito críticas diretas a Lula porque – justifica – ele não é candidato. Daqui a quatro meses e pouco deixará o governo e irá para casa. Candidata a governar o País é Dilma – e é com ela que se deve travar o combate. O eleitor deve comparar Dilma com ele, Serra, e ver qual dos dois está mais preparado para gerir os destinos da Nação nos próximos quatro anos.
A estratégia, aparentemente correta, pretende desvincular Dilma de um presidente com tão alta aprovação popular. Acontece que isso não estaria ocorrendo. Serra não está conseguindo dissociar Dilma de Lula e então ficam ele e Dilma falando mais ou menos a mesma coisa. Um diz que vai fazer não sei quantos hospitais e quantas escolas, que fez isso e aquilo, outro diz que vai fazer o trem-bala (que por enquanto não passa de fantasia de campanha eleitoral, pois não há nem levantamento de trajeto, de possíveis e complicadas desapropriações etc.) e não sei quantos quilômetros de ferrovias e que também fez isso e aquilo. Ou seja, como diria Plínio de Arruda Sampaio, são candidatos iguais. E se são iguais, imagina o eleitor – que, de modo geral, não está insatisfeito com a situação do País – por que mudar?
Serra aproxima-se, pois, de uma encruzilhada. Vai continuar com essa mesma estratégia nos programas de propaganda eleitoral que começarão amanhã, na televisão, ou a mudará drasticamente? Se persistir nesse caminho e, depois dos primeiros programas não obtiver o resultado esperado, seria melhor lançar fora a pele de cordeiro e agir como leão, atacando firmemente os desmandos administrativos, os desvios de conduta, a partidarização da máquina governamental, enfim, tudo de errado que há no governo. Tem de deixar claro para o eleitor de que lado está o trigo e de que lado está o joio. Talvez só assim se tire o eleitorado da letargia em que está mergulhado.
REVELAÇÕES DO PORÃO
Muito esclarecedora a entrevista do sindicalista Wagner Cinchetto à revista Veja. Ele revela, como ex-integrante de um grupo sindical-petista, como se preparam dossiês contra adversários. Uma de suas informações é de que esse grupo esteve por trás do caso Lunus.
Para quem não se lembra, Roseana Sarney, então do PFL, começava a subir como pré-candidata à Presidência da República nas eleições de 2002, em que concorriam também Lula e Serra. Sua candidatura, porém, desabou quando a Polícia Federal, com mandado judicial, vasculhou o escritório da empresa Lunus, no Maranhão, descobriu suas ligações com a candidata, irregularidades com a Sudam e R$ 1,34 milhão em dinheiro. A família Sarney atribuiu o fato ao então candidato José Serra – agora se sabe que tudo teria sido engendrado pelo porão sindical – bandeou-se para o lado de Lula e o PFL, agastado, distanciou-se de Serra e do PSDB.
Pergunta da revista: O então candidato Lula sabia alguma coisa sobre a atividade de vocês? Resposta: Lula sabia de tudo e deu autorização para o trabalho.
DILMA E AS PROVAS
Indagada sobre a matéria de O Estado de S.Paulo, segundo a qual, em julho de 2004, a governadora Roseana Sarney, sua aliada, teria simulado empréstimo de R$ 4,5 milhões com o Banco Santos, para repatriar dinheiro do exterior, Dilma Rousseff disse que só se manifestará depois de ver os documentos do Banco – que está sob intervenção judicial, decretada em novembro de 2004. Se ela for esperar que os documentos sejam examinados pela justiça – com decisão transitada em julgado – talvez não se manifeste antes das eleições de 2014.
O PASSADO DE DILMA
Na extensa matéria que a revista Época publica sobre as atividades de Dilma Rousseff na luta armada contra o regime militar, não há nada indicando ter ela participado diretamente de ações armadas, como assalto a bancos (para “expropriações”, segundo a terminologia dos grupos da luta armada) ou assassinatos. Mas consta dos arquivos policiais que ela ocupava cargos de direção nacional nesses movimentos, denominados de Colina, VAR e VAR-Palmares.
AGÊNCIAS ESVAZIADAS
Lula nunca escondeu seu desapreço pelas Agências Reguladoras, criadas pelo governo Fernando Henrique para assegurar o cumprimento de contratos e defender os interesses de usuários de serviços públicos. Ao tomar posse, em 2003, disse que elas eram uma forma de “terceirizar o governo”. Desde então as vem debilitando. Primeiro, loteando os cargos de direção entre partidos políticos aliados, quando a ideia era de que, para atuarem com independência, as agências deveriam ser dirigidas por técnicos desvinculados até mesmo do governo. Depois, criando órgãos para assumir papeis das agências, como é o caso da recriação da Telebrás e da Petro Sal. Agora se revela que o governo as está deixando também à míngua de verbas. Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, o contingenciamento médio das verbas, entre 1998 e 2009, foi o seguinte em cada Agência: ANP (combustíveis), 88,9%; Aneel (energia), 51,7%; Anatel (telecomunicações), 84,7%; Ana (águas), 53,6%; ANTT (transportes terrestres), 46,9%; Antaq (transportes aquaviários), 34%; e Anac (aviação), 35,9%.
Democracia, Alternância e Mentiras
Criei-me na luta pela redemocratização do Brasil. Do antigo MDB, PMDB e finalmente PSDB. Apesar disto e de ser eleitor do Serra, vibrei com a eleição de Lula em 2002, pela chegada de um operário na presidência, pela renovação política, pela vitória da democracia.
Outro dia a Dilma disse no jornal Nacional que o Lula chegou ao governo com a inflação descontrolada. Isto me lembrou aquela planilha que passa na internet comparando o governo FHC com o de Lula e afirma ser retirada da The Economist. Trabalho na área de Macroeconomia do Banco Central há 18 anos, me surpreendo e me envergonhado pela falta de pudor com que se manipula informações para uso político.
Com a possibilidade da eleição de Lula naquele ano de 2002, os investidores, nacionais e estrangeiros ficaram com medo. O investimento externo caiu, quem tinha dinheiro no pais arrumou um jeito de mandar para fora. Quem tinha dólares (e nisto também a classe média) guardou. O medo de Lula e do PT gerou um caos na macroeconomia. O dólar mais que duplicou do início de 2001 até a eleição de Lula, ninguém queria mais emprestar ao governo com medo do calote que parte do PT pregava e por isto este teve que aumentar os juros pagos em seus empréstimos. O risco país saltou de forma exorbitante devido ao fator PT e Lula, pois todo o mundo achava que o PT no governo ia declarar moratória, quebrar os contratos. Com isto a inflação estourou, o país entrou em recessão, o desemprego aumentou e os salários em termos reais caíram.
Os fundamentos econômicos do Governo FHC estavam muito melhores que estes números. Estes números foram frutos da crise de confiança provocada pela possível vitória de Lula e do PT. O efeito medo do PT-Lula causou isto. Usá-los para comparar o governo FHC com o de Lula é no mínimo um comportamento de má fé.
O que permitiu o Brasil viver este período de bonança que vivemos hoje foi uma conjunção de fatores, a primeira delas as medidas impopulares tomadas pelo governo de FHC para ajustar a maquina pública, para limpar o sistema bancário e para dar capacidade de ação ao Estado brasileiro, a segunda a sabedoria do Lula de manter tudo isto e aprofundar ainda mais estas reformas de ajustes no seu primeiro mandato, o que fez com que a crise de confiança fosse revertida, dando total independência ao BC para atuar na política monetária e creditícia, principalmente na crise financeira internacional. Também a forma sensata como o atual governo atuou diante da crise. Por fim, como me disse um economista americano outro dia, o risco Brasil caiu e a situação do País melhorou, porque Lula, nem o PT são ameaça a estabilidade e o respeito aos contratos.
Votar no partido A ou no partido B é uma questão de visão de mundo, que eu respeito muito. E acho fundamental que existam visões distintas e que se alternem na direção pública. Inventar mentiras e distorcer os fatos é uma questão de caráter, quando se faz isto para se manter no poder, é uma questão democrática.
Outro dia a Dilma disse no jornal Nacional que o Lula chegou ao governo com a inflação descontrolada. Isto me lembrou aquela planilha que passa na internet comparando o governo FHC com o de Lula e afirma ser retirada da The Economist. Trabalho na área de Macroeconomia do Banco Central há 18 anos, me surpreendo e me envergonhado pela falta de pudor com que se manipula informações para uso político.
Com a possibilidade da eleição de Lula naquele ano de 2002, os investidores, nacionais e estrangeiros ficaram com medo. O investimento externo caiu, quem tinha dinheiro no pais arrumou um jeito de mandar para fora. Quem tinha dólares (e nisto também a classe média) guardou. O medo de Lula e do PT gerou um caos na macroeconomia. O dólar mais que duplicou do início de 2001 até a eleição de Lula, ninguém queria mais emprestar ao governo com medo do calote que parte do PT pregava e por isto este teve que aumentar os juros pagos em seus empréstimos. O risco país saltou de forma exorbitante devido ao fator PT e Lula, pois todo o mundo achava que o PT no governo ia declarar moratória, quebrar os contratos. Com isto a inflação estourou, o país entrou em recessão, o desemprego aumentou e os salários em termos reais caíram.
Os fundamentos econômicos do Governo FHC estavam muito melhores que estes números. Estes números foram frutos da crise de confiança provocada pela possível vitória de Lula e do PT. O efeito medo do PT-Lula causou isto. Usá-los para comparar o governo FHC com o de Lula é no mínimo um comportamento de má fé.
O que permitiu o Brasil viver este período de bonança que vivemos hoje foi uma conjunção de fatores, a primeira delas as medidas impopulares tomadas pelo governo de FHC para ajustar a maquina pública, para limpar o sistema bancário e para dar capacidade de ação ao Estado brasileiro, a segunda a sabedoria do Lula de manter tudo isto e aprofundar ainda mais estas reformas de ajustes no seu primeiro mandato, o que fez com que a crise de confiança fosse revertida, dando total independência ao BC para atuar na política monetária e creditícia, principalmente na crise financeira internacional. Também a forma sensata como o atual governo atuou diante da crise. Por fim, como me disse um economista americano outro dia, o risco Brasil caiu e a situação do País melhorou, porque Lula, nem o PT são ameaça a estabilidade e o respeito aos contratos.
Votar no partido A ou no partido B é uma questão de visão de mundo, que eu respeito muito. E acho fundamental que existam visões distintas e que se alternem na direção pública. Inventar mentiras e distorcer os fatos é uma questão de caráter, quando se faz isto para se manter no poder, é uma questão democrática.
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