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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Francisco de Oliveira: privatização é com Lula

Para reflexão,
retirado do Blog do Noblat (publicado na Folha de São Paulo)

Sociólogo afirma que 'Lula é mais privatista que FHC'
Para Francisco de Oliveira, um dos fundadores do PT, é "ilusão de ótica" achar que o presidente é estatizante

Professor emérito de sociologia da USP diz que atual segundo turno obriga eleitor a escolher entre o "ruim e o pior"

Uirá Machado

No começo de 2003, ano em que rompeu com o PT, o sociólogo Francisco de Oliveira, 76, afirmou que "Lula nunca foi de esquerda".

Agora, o professor emérito da USP dá um passo adiante e diz que Lula, mais que Fernando Henrique Cardoso, é "privatista numa escala que o Brasil nunca conheceu".

Na entrevista abaixo, Oliveira, um dos fundadores do PT, também afirma que tanto faz votar em Dilma Rousseff (PT) ou José Serra (PSDB).

Folha - Qual a sua avaliação sobre o debate eleitoral no primeiro turno?
Fora o horror que os tucanos têm pelos pobres, Serra e Dilma não têm posições radicalmente distintas: ambos são desenvolvimentistas, querem a industrialização...

O campo de conflito entre eles é realmente pequeno. Mas, por outro lado, isso significa que há problemas cruciais que nenhum dos dois está querendo abordar.

Que tipo de problema?
Não se trata mais de provar que a economia brasileira é viável. Isso já foi superado. O problema principal é a distribuição de renda, para valer, não por meio de paliativos como o Bolsa Família. Isso não foi abordado por nenhum dos dois.

A política está no Brasil num lugar onde ela não comove ninguém. Há um consenso muito raso e aparentemente sem discordâncias.

Dá a impressão que tanto faz votar em uma ou no outro...
É verdade. É escolher entre o ruim e o pior.

Qual a sua opinião sobre a movimentação de igrejas pregando um voto anti-Dilma por causa de suas posições sobre o aborto?
É um péssimo sinal, uma regressão. A sociedade brasileira necessita urgentemente de reformas, e a política está indo no sentido oposto, armando um falso consenso.

O aborto é uma questão séria de saúde pública. Não adianta recuar para atender evangélicos e setores da Igreja Católica. Isso não salva as mulheres das questões que o aborto coloca.

O sr. foi um dos primeiros a romper com o PT, em 2003, e saiu fazendo duras críticas ao presidente. Lula, porém, termina o mandato extremamente popular. Na sua opinião, que lugar o governo Lula vai ocupar na história?
A meu ver, no futuro, a gente lerá assim: Getúlio Vargas é o criador do moderno Estado brasileiro, sob todos os aspectos. Ele arma o Estado de todas as instituições capazes de criar um sistema econômico. E começa um processo de industrialização vigoroso. Lula não é comparável a Getúlio.

Juscelino Kubitschek é o que chuta a industrialização para a frente, mas ele não era um estadista no sentido de criar instituições.

A ditadura militar é fortemente industrialista, prossegue num caminho já aberto e usa o poder do Estado com uma desfaçatez que ninguém tinha usado. Depois vem um período de forte indefinição e inflação fora de controle.

O ciclo neoliberal é Fernando Henrique Cardoso e Lula. Só que Lula está levando o Brasil para um capitalismo que não tem volta. Todo mundo acha que ele é estatizante, mas é o contrário.

Como assim?
Lula é mais privatista que FHC. As grandes tendências vão se armando e ele usa o Estado para confirmá-las, não para negá-las. Nessa história futura, Lula será o grande confirmador do sistema.

Ele não é nada opositor ou estatizante. Isso é uma ilusão de ótica. Ao contrário, ele é privatista numa escala que o Brasil nunca conheceu.

Essa onda de fusões, concentrações e aquisições que o BNDES está patrocinando tem claro sentido privatista. Para o país, para a sociedade, para o cidadão, que bem faz que o Brasil tenha a maior empresa de carnes do mundo, por exemplo?

Em termos de estratégia de desenvolvimento, divisão de renda e melhoria de bem-estar da população, isso não quer dizer nada.

Em 2004, o sr. atribuiu a Lula a derrota de Marta na prefeitura. Como o sr. vê como cabo eleitoral de Dilma?
Ele acaba sendo um elemento negativo, mesmo com sua alta popularidade. O segundo turno foi um aviso. Essa ostensividade, essa chalaça, isso irrita profundamente a classe média.

É a coisa de desmoralizar o adversário, de rebaixar o debate. Lula sempre fez isso.

domingo, 17 de outubro de 2010

Poesia - Dualismo - Rosa Maria Soares Bugarin

Tia Rosa me deu de presente de aniversário (19 de setembro). em uma bonita moldura de pássaros. Disse-me que havia escrito antes, mas que, como poeta, sua obra era atemporal e que naquele dia sentia que tinha escrito para mim.
Muitos tem o privilégio de ganhar bens materiais. ^
Tia Rosa como sempre foi mais além.

Dualismo
Rosa Maria, Urbana, 14 de Novembro de 1996.

Não ser comum
e sofrer na diferença.
Sentir demais
e magoar-se na dureza.
Caminhar com os olhos para o alto
e tropeçar nas pedras do caminho.
Ensaiar um canto de vitória
e ser calado pela massa amorfa,
Tentar tocar estrelas luminosas
e mergulhar na terra dura e fria.
Querer subir, possuir o espaço pleno
e estar parado na limitação.
Ter o dom de falar e bem dizer
e estar só, sem ser ouvido por ninguém.
Possuir toda a luz dos dias lindos
e enegrecer na solidão das horas mortas.
É o dualismo de quem sendo brilho tem que andar, curvado, pelo chão.
É a angústia de quem possui o sol, Semente divina de esperança.
De quem viaja em cauda de cometa e passeia no esplendor do céu azul.
Mas, que o mundo atrai para mais baixo e a vida vai minando a resistência.
Abafando as palavras de delírio, Sufocando as benesses de infinito.
No dia-a-dia comum do ser mortal.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Coluna do Ary Ribeiro

11/10/2010
DILMA, A OUTRA FACE

Ary Ribeiro


Finalmente, ao menos a pequena parcela do eleitorado que permaneceu ligada na TV Band até quase à meia noite de ontem, domingo, pôde ver um pouco da outra face (a verdadeira) da candidata Dilma Rousseff.

Dilma, como a Lua, mantinha uma face oculta, fora das vistas do eleitorado. A candidata que andava por aí era só sorrisos. Uma versão marketeada do “paz e amor” da campanha do seu padrinho político.

Essa face não correspondia a tudo que se dizia do comportamento dela como ministra, que muitas vezes seria um tanto ríspida com auxiliares, jornalistas e até colegas de Ministério, a ponto de vários deles, após despacho com ela, irem se queixar ao presidente da República.

Ontem à noite, no primeiro debate entre os dois candidatos, na televisão, eis que surge uma Dilma diferente, agressiva, do começo ao fim, levando seu adversário, José Serra, a dizer-se “surpreendido”.

Seus marketeiros devem ter concluído que num debate mais tranqüilo, ela correria o risco de ser massacrada pela experiência e pelo preparo de Serra. Seria melhor, portanto, partir para acusações, dizendo-se vítima de calúnias, mentiras, “baixarias”, por parte de seguidores dele e, assim, colocá-lo na defensiva.

Serra resistiu bem, rebatendo as acusações sem se alterar. Insistiu em que só tem uma cara, não muda de opinião ao sabor de conveniências eleitorais. Citou declarações contraditórias da candidata a respeito do aborto e da crença em Deus. Afirmou não ter nada a esconder em sua vida, deixando no ar intrigante interrogação. E disse que a candidata e o PT é que dão margem ao surgimento do que classificam de “baixarias”, culpando adversários e a imprensa por isso. São os casos de violação de sigilos fiscais tucanos, da denúncia de tráfico de influência na gestão de Erenice Guerra – ex-mão direita da própria Dilma – na Chefia da Casa Civil da Presidência da República e, agora, da notícia sobre contratos superfaturados nos Correios.

Dilma até disse que “no próximo bloco” voltaria à questão da Erenice, mas não o fez. Ela, mais uma vez, como Lula fizera com Geraldo Alckmin, em 2006, levantou a questão das privatizações. Sem êxito, porém. Serra, preparado, defendeu-as. Se fosse pelo PT, segundo ele, não haveria esses milhões de telefone celular, o Brasil seria “o país dos orelhões”. Os fundos de pensão, em geral controlados por sindicalistas do PT, são donos de boa parte da Vale. O PT segue o ditado chileno: “predica, mas não pratica”. Nas campanhas eleitorais, fala contra a privatização, mas, no governo, privatiza, como fez com dois bancos estatais no Nordeste. E não desprivatizou nada.

Serra ainda foi mais além, ao dizer que vai, isto sim, “reestatizar” a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, os Correios e o BNDES, que, segundo ele, foram loteados entre os partidos que apóiam o governo.

Serra ouviu a candidata dizer que, se eleita, vai fazer não sei quantos centros de saúde, não sei quantas escolas, não sei quantas creches, não sei quantas casas, não sei o que para coibir o tráfico de armas e de drogas. Perdeu a oportunidade de perguntar por que não fez isso nos quase oito anos que passou no governo. Todo mundo sabe que a educação, a saúde pública e a segurança pública, por exemplo, estão em situação mais do que calamitosa.

Enfim, esse primeiro debate serviu para os candidatos começarem a aparecer, para o eleitor, como realmente são.


NADA DEFINIDO

A última pesquisa do DataFolha revelou o que já se previa: o segundo turno é mesmo nova eleição e nada está decidido. Dilma está com 48 pontos e Serra com 41. A diferença entre ambos, que no primeiro turno era de 14,30% -- Dilma obteve 46,91% dos votos e Serra, 32,61% -- caiu para 7%.

Na verdade, a diferença pode ser menor, como demonstra José Roberto de Toledo, especialista em pesquisas eleitorais. Serra não precisa de mais 7% dos votos para vencer. Bastaria que 4% dos eleitores, em vez de votar na Dilma, votassem em Serra. Um eleitor que assim proceda produz efeito duplo: tira voto de um candidato e o transfere para outro.

É claro que a migração de votos pode ocorrer em sentido contrário, aumentando a votação da candidata oficial. Tem-se de aguardar a abertura das urnas. Por isso, até lá nada estará decidido. Ninguém poderá ficar cantando vitória antecipadamente, como havia acontecido no primeiro turno.


BRIGA NO ARRAIAL

Enquanto as coisas não se definem, as principais correntes no arraial governista vão desensarilhando as armas. Dentro do PT, são três os que se preparam para dominar o próximo governo: o ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci (graças ao qual foram mantidas as linhas da política macroeconômica do governo Fernando Henrique, responsáveis pelos frutos colhidos pelo governo Lula), o ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu (opositor daquela política) e, claro, Lula, que lançou uma candidata sem votos e à revelia do PT justamente para ter de fato um terceiro mandato. O PMDB, por sua vez, não se conforma em estar num segundo plano (abaixo do PT). Quer o lugar privilegiado de “sócio” do possível futuro governo, em igualdade de condições com o PT. E para complicar mais as coisas, o novo membro da coordenadoria da campanha de Dilma, Ciro Gomes, assumiu a função fazendo duríssimas críticas ao PMDB.

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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Coluna do Ary Ribeiro

04/10/2010



DERRAPADA DE DILMA

Ary Ribeiro


O que parecia quase impossível aconteceu: a candidatura Dilma Rousseff derrapou a poucos metros da chegada.

Para isso contribuíram certamente as denúncias envolvendo sua amiga e sucessora na chefia da Casa Civil, Erenice Guerra – que devem ter alarmado ao menos parte do eleitorado mais esclarecido –, a melhora registrada na campanha de José Serra (que parou de cair) e sobretudo o surpreendente desempenho da Marina Silva.

O fato é que a candidatura sofreu forte abalo. Por mais que seus partidários procurem disfarçar, é inegável a frustração que devem estar sentindo. Para quem estava certo de ganhar em primeiro turno, ir para o segundo não deixa de ter ligeiro sabor de derrota.

Podem dizer que o segundo turno será moleza, para quem obteve 46% dos votos válidos no primeiro. Bastariam apenas mais 4%. Em tese, sim. Mas em política as coisas não se passam assim.

O segundo turno será, sim, nova eleição. Para onde irão, por exemplo, os quase 20% dos votos dados a Marina Silva e mais alguns dos outros candidatos? Quem votou nela em função da causa ambientalista não terá razão para apoiar justamente a candidata que, quando no governo, se opunha às causas da Marina, a ponto de levá-la a demitir-se do cargo de Ministra e a desligar-se do próprio PT. E muitos dos que nela votaram, não pela causa, mas por ela mesma, por ter-se encantado com a sua singeleza, sinceridade e preparo, estariam, por isso mesmo, mais propensos a optar pelo candidato que se mostre mais experiente e qualificado para conduzir os destinos do País.

Agora, os dois candidatos – Dilma e Serra – irão se defrontar diretamente. Acabaram aqueles engessados e monótonos debates na TV, em que nada se debatia e a Dilma, para evitar confronto direto de ideias e programas, não fazia perguntas a Serra, preferindo o território mais ou menos neutro dos outros dois contendores: Marina Silva e a Plínio de Arruda Sampaio.

No confronto direto, os eleitores vão poder avaliar realmente as qualidades e as fraquezas de cada candidato. Serra terá oportunidade de demonstrar que se o País está bem, se diminuiu a pobreza, isto não foi realização do governo Lula e sim de governos anteriores, sobretudo de Itamar Franco e de Fernando Henrique. Eles plantaram o que Lula colheu. Mas o alarde que faz da colheita engana até respeitáveis jornais do exterior, como se vê pela edição de hoje do New York Times e do Le Monde. Mas não na do Financial Times, que realisticamente atribui a César o que é de César.

A propósito, muita gente está satisfeita com a situação por estar podendo comprar mais (ou simplesmente comprar) e, por isso, aprova o governo Lula. Mas e a saúde pública, a educação e a segurança pública não contam? Ou está satisfeita com o estado em que se encontram?

Lula anunciou que no segundo turno vai arregaçar as mangas – como se já não o tivesse feito no primeiro – para conseguir a vitória. Que mais pode fazer? A máquina já estava mobilizada. O peleguismo sindical também. Talvez só falte o MST.

Agora, o outro lado pode possivelmente contar com as lideranças regionais que, prudentemente, estiveram enrustidas no primeiro turno, receosas de ser arrazados pelo “efeito Lula”, como algumas o foram. É o caso, por exemplo, de Aécio Neves, que praticamente não apareceu na campanha de Serra, imaginando que isso talvez pudesse atrapalhar o que para ele era prioritário: reeleger o governador Anastásia e eleger a si próprio e a Itamar Franco para o Senado. Garantido isso no primeiro turno, com larga vantagem, está livre para se engajar para valer na campanha de Serra. Não somente ele, mas também o governador eleito Anastásia e o senador eleito Itamar Franco. Eles podem virar a votação em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do País.

Em São Paulo, Geraldo Alkmin, eleito governador no primeiro turno, também está livre para fazer campanha não somente no Estado como também no País, pois como ex-candidato presidencial, é reconhecida liderança nacional.

Podem juntar-se também à campanha outras lideranças, como a governadora eleita e o senador reeleito do Rio Grande do Norte, Rosalba Ciarlini e Agripino Maia, ambos do DEM; o tucano Beto Richa, governador eleito do Paraná; o governador eleito de Santa Catarina, Raimundo Colombo (DEM); e até mesmo o tucano Arthur Virgílio, que, apesar de derrotado no Amazonas pelas poderosas forças que se juntaram contra ele, é reconhecidamente um líder nacional, com grande número de admiradores em todo o País.

Resta saber se finalmente a Oposição vai se unir ou se seus principais líderes vão continuar cada um para seu lado. E também se a campanha de Serra terá a inflexão reclamada por tanta gente, até dentro das próprias fileiras tucanas.


DF: DIFÍCIL OPÇÃO

Brasília está diante de difícil opção: de um lado, a candidata que representa o velho grupo que ostenta realizações – inclusive a Ponte JK – mas é alvo de denúncias de corrupção e criticado pelo inchaço do Distrito Federal; de outro, o candidato do esquema que também tem sido alvo de denúncias de corrupção – como os casos do mensalão e, recentemente, do que ocorreu na Casa Civil da Presidência da República – e apresenta traços de autoritarismo – inclusive controle da imprensa – em seu projeto de governo. Qual o mal menor? É a questão.


EFEITO TIRIRICA

Quem sabe se a eleição do Palhaço Tiririca a deputado federal por São Paulo, com mais de um milhão de votos, não terá o efeito útil de levar o Congresso, finalmente, a fazer a tão falada reforma política? Não se pode continuar com um sistema eleitoral que estimula candidaturas, digamos exóticas, para atrair avalanches de votos e, com estes, graças à soma e divisão que se faz, por legendas, eleger mais três ou quatro candidatos quase desconhecidos dos eleitores. Muitos votam nesse tipo de candidato em sinal de protesto ou por achar engraçado. Depois ficam reclamando do Congresso. Pior não fica; fica sim! Os votos no rinoceronte Cacareco foram também de protesto, mas ao menos não ajudaram a eleger outros candidatos.
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